09/05/2010

impossibilidades: do silêncio e da solidão

Falar sobre minha solidão é uma dupla impossibilidade: ultrapasso o limite do silêncio, invento um interlocutor ausente. Talvez seja necessário um segundo passo, em sentido contrário: um interlocutor solitário e um eu ausente.
Poderia então falar sobre o andar distraído em meio à multidão anônima numa cidade desconhecida; sobre a estranheza e familiaridade de cada rosto e cada gesto, cada prédio em cada esquina, a repetir-se incansavelmente, do menor ruído, a mínima sombra, o vento na blusa, ao acidente na rua, o choque, os transeuntes, a cena de sempre.
Tudo isto é sólida solidão e silêncio. Tão agudo que a epiderme se rompe e a futura ferida se expõe; tão agudo o vento depois da chuva, o rumor da cortina, o calor através da pele, a veia, o nervo; sem mudar, contudo, a temperatura do corpo, o tato ou o tempo.
Nenhuma permanência. Neste espaço a memória persiste: o contato é distante, o afeto é distante, o amor é distante, e não se fala sobre isso. Então preciso ir tão longe para dizer essas coisas que talvez se repitam, nas ruas e nos dias, como uma contradição permanente, uma falta incontornável, do silêncio, da solidão e da saudade.

02/04/2010

Penetrar com o olhar algo tão profundamente até que desapareça.

distraídos

quando seus olhos não viam o vento
carregando as folhas
e o gesto agressivo do tempo
suas mãos perdiam o tamanho das coisas

As bordas da angústia dão os limites do meu corpo, do desejo comprimido em perguntas

Ando passo a passo perplexo.
Parado refaço o trajeto.
Ando passo a passo distraído.
Interrompo o fluxo contraído da vontade.
Deserto do pensamento.

Passo a passo perplexo
Passo perto da palavra sexo
Parada a um pé da porta.

Qualquer lugar tornou-se lugar comum

A vegetação asfáltica da cidade atravessa a retina da rua.
...

Despedida do inverno

o sol a um passo da porta cobre a cama que guarda o sabor do sono sereno e do silencioso despertar na súbita manhã

na densa aridez do fato, irrevogável ato da memória em cacos dos pequenos objetos cotidianos lançados no abandono, decomposição da matéria pelo uso dos sentidos

a lembrança refaz o fato que resiste ao esquecimento e repete o corte, a parte incongruente, a gravidade inversa para alcançar o vôo da janela

cansada de existir

ignorância

não acredito em verdades silenciosas,
desconfio de idéias estáticas,
prefiro pensamentos estrábicos
que duvidam de espelhos e de
si mesmos.

Taxonomia do tóxico (letra F)

A flor, o futuro fruto; a faca, o furto; a força fabricada na fúria; a farsa, a fuga; afã e fadiga; a fé no futuro e na fortuna; a falsa felicidade, a falta de fragilidade; a fome e a feiúra; a feira e a fartura; a fruta, a folha; a fita, o fígado; o falo, a fala, a fenda; fonema, figura; o fascículo e o folhetim; o fascínio e o festim; a fila, a faísca, o fio; a ferida e o fim.

"o que dá na telha escorrega"

sensorium

Primeira experiência sonora em quatro partes ao todo

1. válvula de descarga
2. motor de geladeira
3. dilatação do piso
4. água em ebulição

(combiná-las de diferentes formas)