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02/06/2014

Apiáceo

Acordei com uma abelha no travesseiro.
Não sei se estava morta ou dormindo.
Passei o dia inteiro perguntando
se eu sonhei com ela ou ela comigo.
Salvador Dali - Sonho causado pelo voo de uma abelha

29/02/2012

quase sonho



ruas sem nome
casas sem número
ninguém nem nada
a noite apenas
densa e interminável



24/03/2011

um sonho que não sonhei

Entrei em um antigo cine-teatro, de chão e paredes de madeira, poltronas de tecido vermelho, com uma tela de projeção em um palco redondo. As cortinas estavam abertas. Sentei, apagaram-se as luzes. O filme projetado tinha um aspecto de sonho ou lembrança de infância, como uma fotografia antiga de cujas cores, cenário e contexto a história fora remontada.

Dia ensolarado em uma praia de areia e águas claras. Foco difuso ou concentrado em um ponto impreciso entre a câmera e a cena.

Estava minha mãe, ainda adolescente, de maiô, em pé na areia, levemente inclinada para frente, com as mãos no pescoço e os braços rentes ao corpo. Sua expressão estática, boca aberta, parecia chamar alguém no mar.

À esquerda e mais ao fundo, sentada sob um guarda-sol, de cabelos escuros, estava minha avó, cuja silhueta turva não se distinguia da paisagem.

No mar, brincavam meus tios muito jovens. A cena era cheia de movimento: os braços agitando a água, as penas sacudindo sem tocar o fundo, a gargalhada escancarada nos dentes. Aquele rosto magro de nariz comprido e afilado, era meu tio que nunca conheci. Não consegui focar seu rosto. Quanto mais enquadrava a imagem e ampliava o detalhe, mais se tornava embaçado e indistinguível.

Acenderam-se as luzes. Entrou no palco uma mulher contando ópera. Na cadeira ao meu lado havia um libreto. “A interpretação dos sonhos”, de Freud, era interpretada naquela canção.

Acordei perturbado com aquelas imagens e procurei remontar a história. Perguntei, afinal, quem poderia ter visto aquela cena, quem estaria com a câmera na mão, ou de quem seria aquela lembrança. O único personagem que não era visto era meu avô.

02/04/2010

Despedida do inverno

o sol a um passo da porta cobre a cama que guarda o sabor do sono sereno e do silencioso despertar na súbita manhã

na densa aridez do fato, irrevogável ato da memória em cacos dos pequenos objetos cotidianos lançados no abandono, decomposição da matéria pelo uso dos sentidos

a lembrança refaz o fato que resiste ao esquecimento e repete o corte, a parte incongruente, a gravidade inversa para alcançar o vôo da janela

cansada de existir

20/03/2010

NÃO SE PODE SAIR COM TOURO NA RUA

Não fosse o fim da festa (não conhecia ninguém) – mas meu irmão insistiu – não permitiria que ele prosseguisse – eu sonhava (começou a chover).

(Olhei o céu e nada). No banho, vendo meus olhos abertos, retomou o assunto – o que havíamos conversado? Permaneci na cama com um sorriso de quem ouve. Estava se limpando da noite, dos lençóis, do suor, do meu corpo, da lembrança da noite, do suor do meu corpo. (Olhei o céu e nuvens).

Entrei (não havia ninguém na casa), peguei algumas roupas – alguns papéis no chão –, sentei.

“Me ajuda a lavar a mão?”
Era muito pequena deitada no assoalho.
“O que houve?”
Não tinha um braço e uma perna.
“Nada...”
Hematomas amarelecidos e azuis.
“Como assim?”
Era muito pequena sentada no lavabo.

Não. Não a conheço. Olhos vermelhos? Um pouco de pó, talvez. Senta. Quer? Não, não a conheço. Só nos falamos uma vez. Ela estava sozinha. Precisava de atenção. Mas não a conheço. Parece bonita. Não. Não lembro o que conversamos. Era sobre ela. Estava sozinha. Estávamos na sala. Um pouco de pó. Ela estava sozinha. Precisava de atenção. Não. Não lembro. Eu sei o que eu queria. Queria sexo. Só sexo. Um pouco de pó. Então acho que ela queria. Não sei. Foi tudo muito rápido. Não sei o nome. Não lembro. Só sexo. Ela estava sozinha. Não fiz nada. Aliás. Ela nem gritou. Entende?

Fechou o registro, enxugou o sexo, continuou o assunto (como?), repetiu, falou atrás da toalha, veio em minha direção, (como?) te amo. Já estava em cima de mim, meu amor, repetia, meu amor, sua pele ainda fria do banho, sua boca com gosto de pasta, me chupa, meu amor, goza, meu amor, meu amor... Alisou meu rosto, beijou, levantou, lavou o sexo, falou algumas palavras, virei de lado e fechei os olhos.

Saí de sexo exposto, andei na calçada, alguém parou e me disse alguma coisa, sorriu e se foi, continuei na calçada, atravessei um jardim, não lembro qual casa, um pai comia o filho no quarto, voltei pra calçada, meu irmão veio falar comigo. Não. Não lembro. Era importante?

Mandei tomar no cu. Vesti minha roupa. Preciso ir. Preciso ir.

(2006)