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14/03/2012

A esperança é a última que nasce


numa cadeira arcaica
chamada Uzina Esperança
petrificado contemplo
uma paisagem em decomposição

parca luz no fim da tarde
sobre as roupas encardidas do varal
úmidas de esperar por um sol sem cor

que nunca nasce
desde sempre
esquecido

tempo comprimido
espaço dilatado
instante ínfimo no infinito

05/02/2012

incompleto


eu esperava
sem saber que vinhas

e quando nada esperava
       súbita partida

pois sabia sem esperar
que o gesto que abre a porta
   é o mesmo na saída

a se repetir incansável
  repentinamente

      até que não haja porta
nem espera

que tua chegada desde sempre
                          despedida


24/11/2011

PEDRA PENSA


pedra-pedra
pedra-palavra

pedra perpetra
perder-se de si
desprender-se da parte

dedicar todo grão à soltura
pedra perdura
pedra dura

aprender a precariedade
de ser sempre
pedra presente

pedra-pedra
pedra-perda
pedra-pura

pedra propensa
pedra pende
pedra perpassa

pedra preta
pedra presa
pedra tarda

ainda pedra
pedra-pedra
pedra-tempo

04/01/2011

sobreviver

no meio do meu medo tinha nada
que haver que ser senão
continuar a viver

fazer da subsistência existência
persistir para não perecer

sobreviver
sobretudo

permanecer
       penso
sus
       tento
a
       tudo

eu só
ex in
-isto

caco
         fônico

meio medo
quase eu
todo nada

22/12/2010

após Auschwitz

Não é possível poesia após Auschwitz,
pois toda palavra é tortura.
Não é possível música após Auschwitz,
pois todo som é agonia.
Não é possível dança após Auschwitz,
pois todo corpo foi dilacerado.
Não é possível imagem após Auschwitz,
pois estamos todos cegos.

Auschwitz é nossa arquitetura
e nossa forma de habitar a arte
ainda que impossível.

03/10/2010

Anotações à margem II

I
seriam os olhos esferas que a paisagem restringe?
seria o corpo superfície em que se formam
imagens de horizontes confusos?

os meus pelos estão dispostos ao vento,
à chuva que não chega nunca enquanto
as nuvens que sufocam meus olhos insinuam
sub-repticiamente sobre a pele
uma umidade ambígua ou fraca
luz no fim do dia que não vejo

II
seria a dúvida insuspeitável abismo?
seria possível um instante anterior à palavra?

procuro na solidão o som palpável de perguntas
que ainda não foram formuladas ou que talvez
não se possa ouvir simplesmente porque
toda reflexão é uma refração ou um objeto rarefeito



18/08/2010

Anotações à margem

Como retornar quando não se sabe pra onde,
quando o estranho não tem origem?
Como conciliar o desejo de permanência e a necessidade de fuga,
quando se foge de tudo, de si mesmo e da pergunta?
Como inventar um caminho sem chão, ou seguir sem rumo,
quando a coragem, na verdade, é vertigem?

...

saber-se só
na impossibilidade de repetir
o parto e a partida;

esquecer-se ao
abandonar o porto náufrago
e o conforto da despedida;

seguir sozinho
quando a vida não passa
de um trabalho constante:
desmontar roda-gigante.

Parque da Pampulha, 07.08.2010

02/04/2010

distraídos

quando seus olhos não viam o vento
carregando as folhas
e o gesto agressivo do tempo
suas mãos perdiam o tamanho das coisas

As bordas da angústia dão os limites do meu corpo, do desejo comprimido em perguntas

Ando passo a passo perplexo.
Parado refaço o trajeto.
Ando passo a passo distraído.
Interrompo o fluxo contraído da vontade.
Deserto do pensamento.

Passo a passo perplexo
Passo perto da palavra sexo
Parada a um pé da porta.

ignorância

não acredito em verdades silenciosas,
desconfio de idéias estáticas,
prefiro pensamentos estrábicos
que duvidam de espelhos e de
si mesmos.

conversa com caeiro

"pensar incomoda como andar na chuva"
quando o vento é contrário
e as calçadas empoçam

os homens conversam sozinhos
atrás das janelas
habituados ao silêncio
após as perguntas

o céu feito chumbo
ou cinza de incêndio
...

21/03/2010

sua palavra corrosiva
rasga minha pele
segura meu passo
a um passo da porta

– a dor incurável
da impossibilidade do retorno –

resta-me seguir outro
caminho improvável
caso amanheça
e eu volte a dormir.
as nuvens nos meus olhos vagos
o silêncio da espera abandonada:
o tempo se devora.

a chuva sobre a pálpebra confusa
o choro represado da angústia:
o tempo se demora.

as nuvens nos meus olhos fechados
no parapeito da memória:
o tempo se desdobra.

teu corpo nublado
interroga minha mão:
o tempo se devora.

no meu corpo redescoberto
um sol possível
de ser pensado.
em matéria de tempo
o tempo da matéria
não é o mesmo:
da árvore,
da pedra,
da árvore
do outro lado
da pedra.

o fim do horizonte não há.

assunto miúdo

me deves uns trocados,
assunto miúdo,
aquele papo pouco
de trocar palavras por
gestos distraídos.

14/01/2010

tenho de reinventar minha existência.

uma cidade em ruínas que se apaga ao menor ruído da máquina estática do tempo. nos espaços vazios dos escombros se arriscam meus projetos, que se desfazem antes mesmo de serem erguidos.

tenho de encontrar minha solidão. talvez haja um alento nesse silêncio.

penso que cada inseto pode ser um Gregor, ou um escritor, ou outro eu.
penso: existo? pensar só pirora as coisas.

(20.11.09)

06/03/2009

ando abismado, perplexo
absorto, perturbado com tudo

ando abatido, complexo
absurdo, conturbado contudo

ando no abismo, reflexo
quase morto, vazio do meu corpo

ando obscuro, recluso
obtuso, confuso até o pescoço

ando abstrato, fluxo
obstruso, aborto da vontade

ando obsceno, aceno para o desejo
abissal, aberto pelo medo

ando mesmo cansado, convexo
disperso o mundo em fragmentos

ando angustiado até os pés
rasgarem e crescerem bolhas
de ar nos meus olhos

30/01/2009

a mim mesmo o mar

cobre quando escuro


meus pulmões viram algas

meu crânio corais

esqueci-me de ser

aquilo que queria

há poucos segundos


uma vontade fraca

de continuar aquilo que há

pouco tempo perdi

todos os dias serão tristes como este

em doses homeopáticas

acompanhadas de tédio e surtos

de surdez de doze em doze

ou oito em oito horas

sobretudo às quartas em que

o dia é cinzazulado

ou outono