Mostrando postagens com marcador prosa-esparsa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador prosa-esparsa. Mostrar todas as postagens

05/03/2012

em que nada acontece IV



com angústia e lentidão preparei-me para o imprevisível, banhei-me de perfume e flores, com olhar distraído e passos imprecisos procurei entre portas e janelas, e quando cheguei, não havia ninguém – era tarde demais, ou cedo demais para esperar.

02/10/2011

em que nada acontece III


“Procure a sorte à sua volta, ela pode estar mais próxima do que você imagina”, dizia o bilhete, que depois perdi.
Usei o perfume dos bravos – pensei: é preciso coragem para prosseguir. Conversei com três lobos perdidos numa noite sem lua. Guardei um jasmim sob o chapéu para perfumar os cabelos. Esperei amanhecer, hora em que os prédios são de uma cor confusa.
Fiz uma lista, que depois perdi, de coisas imprecisas que fazer: sair de casa sem anúncio ou previsão, vagar pela cidade sem destino ou propósito – pensei: quem não espera não encontra o inesperado. Comprei sapatos que mordem o calcanhar. Dei com bares e portas fechados, pessoas indecisas como eu e lugares previsíveis como sempre. Pensei: é preciso coragem para parar.
Sem pensar, estático, com os olhos ora ao longe ora ao chão, me surpreendi quando um estranho me perguntou o que faço, realmente: nada. Isto fez estender o desentendido.
Saí só para só ficar. Assim é, em que nada acontece, como sempre.
Sempre previsível, nunca provável.

em que nada acontece II

Quase. Zero muda tudo. Nunca ganhei nada, nem em sorteio, bingo ou coisa parecida. Não que participasse ou esperasse algo. Nunca me empenhei em nada. Não acredito na sorte. Aposto, mas nunca em números.
Desconfio de todo ato. O mínimo é o máximo. Nada fazer exige coragem.
Deram-me um número: trinta e três. Não, não era o pneumotórax. Sem acreditar (como alguém que contempla a arquitetura contraditória que os homens erguem em monumento à ineficácia da duração – tudo perece, penso), aguardo.
Disseram: trinta e três. Por alguns segundos titubeei. Por gentileza, não por acreditar (como alguém que ensaia um gesto estúpido e previsível para ser espontâneo – o que o torna mais estúpido ainda), prossigo.
Não, trinta e três não é trezentos e trinta. Zero faz toda diferença. É isto.
Dei a volta ao círculo. No meio do caminho, quase encontrei: Leisa. Parei por alguns segundos. Não, havia um zero, um redondo G antes de Leisa. Sim, quase, sempre.
Tarde cheguei a casa, cansado de nada acontecer.

25/05/2011

em que nada acontece I

À espera do inesperado, procurei me perder. Vagar pelas ruas, conversar com mendigos, entrar em algum lugar abandonado. Nada aconteceu, como previsto. As portas estavam fechadas, ninguém apareceu e é impossível perder-se em uma cidade planejada. Estúpida ironia. Um dia extraordinariamente normal. Nada belo, nenhum sentimento. Apenas a suspeita de vagar em vão. Não há diferença entre sair sozinho ou acompanhado – a mesma solidão, assumida ou disfarçada. Sempre os óculos escuros a esconder olhos contritos e ressequidos de dias sem dormir, meses sem chuva, anos sem chorar.

02/03/2011

Plaza de Mayo


Na praça do obelisco, os acontecimentos mais corriqueiros – pombos disputam migalhas e voam alvoroçados quando um menino de braços abertos corre em sua direção – soam como notas de um arranjo orquestrado – pessoas passeiam, outras param por um instante dispostas ao redor do monumento – como um centro gravitacional em torno do qual circulam fragmentos que logo voltam a se dispersar – sem notar no que estava ali inscrito talvez eterna ou momentaneamente – como um instantâneo fixado na retina quando acaba a bateria da câmera fotográfica.

(Buenos Aires, 26.10.10)

28/02/2011

impressões de uma manhã


por entre uma estreita fresta da janela insinua-se uma tímida luminosidade a erguer um microcosmo de poeira e película dentro do quarto escuro onde todas as manhãs o mesmo sol incide sobre o livro deitado no criado mudo formando envergaduras nas bordas da capa e amarelecendo as páginas em um envelhecimento diário para conservá-las como folhas de um eterno outono

(imagem: William Turner, "Rain, Steam and Speed")

26/02/2011

breviário

pouco antes de amanhecer contaram-se trezentos e sessenta e cinco voltas da minha vinda escritos em um anuário de areia e pedra dura desde quando parti carregado de sonhos e saudades insipientes da ilha cujos limites delineavam minha vista atrás de um horizonte belo e amplo sem saber se afinal partia rumo ao incerto ou se regressava para uma origem desconhecida apenas com sorrisos e lágrimas e mais perguntas que certezas somente de amigos que se mantêm próximos na distância mesmo vertida em tempo feito ponte que me liga de volta à ilha e ao porto de onde parti sem jamais regressar o mesmo nesse ir e vir constante a trocar palavras pensamentos memórias por novos desejos e projetos que se perdem ou se refazem no caminho que de tanto percorrer não sei mais para onde voltar e de onde partir se do mar à montanha ao longe que enfim me encontro como quem jamais partiu e jamais esteve na espera de que mesmo ausente houvesse para onde ir mas sem saber encontrasse esse lugar como se dele tivesse lembrança pois lembranças mudam como lugares e escrevê-las significa caminhar de trás para sempre e dar continuidade ao que é sem começo mas cheio de intervalos pausas silêncios que dão fôlego novo para dizer as incontáveis imagens que vêm juntas à memória como uma implosão contrária em que tudo se concentra ou como uma fotografia em que toda a história está contida em um único instante


09/05/2010

impossibilidades: do silêncio e da solidão

Falar sobre minha solidão é uma dupla impossibilidade: ultrapasso o limite do silêncio, invento um interlocutor ausente. Talvez seja necessário um segundo passo, em sentido contrário: um interlocutor solitário e um eu ausente.
Poderia então falar sobre o andar distraído em meio à multidão anônima numa cidade desconhecida; sobre a estranheza e familiaridade de cada rosto e cada gesto, cada prédio em cada esquina, a repetir-se incansavelmente, do menor ruído, a mínima sombra, o vento na blusa, ao acidente na rua, o choque, os transeuntes, a cena de sempre.
Tudo isto é sólida solidão e silêncio. Tão agudo que a epiderme se rompe e a futura ferida se expõe; tão agudo o vento depois da chuva, o rumor da cortina, o calor através da pele, a veia, o nervo; sem mudar, contudo, a temperatura do corpo, o tato ou o tempo.
Nenhuma permanência. Neste espaço a memória persiste: o contato é distante, o afeto é distante, o amor é distante, e não se fala sobre isso. Então preciso ir tão longe para dizer essas coisas que talvez se repitam, nas ruas e nos dias, como uma contradição permanente, uma falta incontornável, do silêncio, da solidão e da saudade.

02/04/2010

Taxonomia do tóxico (letra F)

A flor, o futuro fruto; a faca, o furto; a força fabricada na fúria; a farsa, a fuga; afã e fadiga; a fé no futuro e na fortuna; a falsa felicidade, a falta de fragilidade; a fome e a feiúra; a feira e a fartura; a fruta, a folha; a fita, o fígado; o falo, a fala, a fenda; fonema, figura; o fascículo e o folhetim; o fascínio e o festim; a fila, a faísca, o fio; a ferida e o fim.

21/03/2010

Quando a delicadeza e o cuidado esbarram nas incertezas de quem existe apenas uma vez, os limites do olhar tornam-se demasiadamente distantes e as palavras soam silenciosamente incompreensíveis.

Quando a espera se desfaz calada, guardada em perguntas repetidas sem a violência de qualquer resposta, reparte o encontro em possibilidades dessemelhantes de inacusável escolha e indesejável dúvida.

APENAS SEREMOS O QUE NÃO SERÍAMOS

Quando amanhã sairmos à rua para ver o sol se por e voltarmos úmidos de serenidade seremos então o que não seríamos se não saíssemos; porém a rua continuaria cheia de passos, o por do sol a se opor, o sereno a molhar os corpos inausentes.

Depois de ouvir isto, permaneci deitado. Não acendi a luz. Continuei procurando na memória a solidão daquela hora. Levantei. Não fui à janela para ver se o havia alguma luz.

Meus passos seguem lentamente seu destino e sem que eu pergunte a cada chão onde estou deixo-me levar por estas pernas tão alheias assim como acredito que coisas são feitas de olhar; e em cada canto ouço sussurros desmedidos de alguém que talvez esteja ali.

(2007?)

20/03/2010

Tomei a chave jogada da janela – abri a porta do edifício – subi a escada (tão indiferente aos meus passos) – cheguei ao apartamento. A sala, o quarto, a cozinha, o banheiro: ninguém; nem a poeira deitada sobre os móveis extintos notou minha presença inquieta.

(2006?)

PONTOS DE UMA PENÚLTIMA TENTATIVA DE ESTRÉIA

Olhei mais uma vez. Ele ainda estava lá. Quando virei, deve ter olhado o relógio: meia hora. Cheguei em casa, liguei o aparelho de som, a mesma música de ontem. Sentei no sofá. No horizonte raso algumas nuvens. Faltou energia. Busquei no armário alguma vela. Nunca comprei. Acendi um cigarro. O último gole de conhaque me trouxe as lágrimas, as mesmas de ontem.

(2006?)

13/01/2010

Diário de bordo. Viagem a Brasília.


25.11.09

Um horizonte, um mar onde encostar os olhos e umedecer a boca, neste caminho que não termina.

Vertigem: sensação de queda num abismo.
Origem: perda de horizonte.



26.11.09

Brasília é uma cidade como outra qualquer. Os prédios encobrem a paisagem, o caos engole a ordem. A cidade torna do concreto ao croqui. Resta o traço, o rastro, a memória em forma de souvenir. A cidade tem de ser desmontada, reinventada a cada segundo. Onde flutuam seus espelhos, seus vidros, o lápis não descobre, o insignificante fragmento que sustenta uma catedral, a leveza do tempo inacabado, da cidade abandonada.

A cidade que me habita desmorona incessantemente, pedra a pedra ao pó reduz-se sua possível existência, poeira de matéria incerta, disforme.

Tenho de reinventar minha existência. Pedra a pedra, palavra por palavra.

Espero encontrar em alguma esquina remota o ponto de fuga onde o destino não me veja correndo de mim mesmo.

Para onde retorno se não sei de onde parti?

(Imagem: croqui de Lúcio Costa)

08/02/2009

Caminho, a passos longos e vagarosos, todo o peso do corpo nos pés, em direção ao mar, que suavemente me cobre, lentamente me despe, e a superfície do olho inunda, todos os poros perfura, frio flutuo.

18/02/2008


As páginas que sucedem silenciosas, suavemente marcadas pelo tempo (murmúrios de chuva, vento e um sol que se esconde) – um tempo que talvez não haja – em caminhos incertos, guardam palavras não ditas, incompreensíveis, todavia vividas, ávidas de uma esperança sem semente nem flor, de galhos que se estendem ao outono que ainda não chegou e que se espera depois do sol que também não se vê.

16/01/2008

A Frederico N. Fisher, morto pela manhã, antes de tudo no fundo estático, como quem por um instante pensa ser formado de pedra - seu corpo insignificante e seus olhos que espelham transparências - depois, esquecido numa gaveta, lançado a mares inertes para ser navio ou vento: tarde, sons de vidro e de água preenchem meu sono quando ando desprovido de memórias para tatear em fundos de armário onde habitam traças e destroços de roupa úmida - diálogos com cortinas - ou mesmo quando a única palavra que nos cabia - incertos de nossa essência: a outridade e o absurdo - era despejada no abismo que há entre a compreensão silenciosa de minha corporeidade e a inacessível certeza de sua existência - com que aprendi a nadar: mais nada.