28/05/2007



cedo demais, o amor – sede de mar –, amarra a vida em vento

07/05/2007

perco o ar a meio caminho do pulmão
perco o chão a meio passo
perco a razão à mínima vontade

perco no ar a respiração
perco o passo a meio chão
perco a vontade e a verdade
a meio caminho do não.

02/05/2007

parto reverso
de um verso
parido

caminho
(quase mudo rumo)
que já não
se refaz

distante
vai deixando de
existir feito
esquecimento

de natureza estranha
as pedras no lugar
das mesmas

verdades que nascem
póstumas

26/04/2007


CANÇÃO DE OUTONO


O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida...
Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
de carícia a contrapelo...
Partir, ó alma, que dizes?
Colhe as horas, em suma...
mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte alguma!

(Mário Quintana)

20/04/2007

quando me convidavas para
passarmos cedo
o sol

juntos só
os grãos de
mar
que com os olhos
colhia

calmo
era mesmo tarde em
chama
o sol se
pondo onde é
parte agora

de tudo lembro como
se só
perdesse

o medo de que não
seria
aquilo que antes de
ser não foi

mar
insiste ruínas

quando tão
breve
partistes

sem direção
o mar
existe

07/04/2007

UM MOMENTO MOVIMENTADO
Veredas de Andrei Tarkovski


Tempo – é preciso perder a pressa e ganhar o ritmo do olhar, do pensamento. Esta é a primeira condição para assistir a um filme de Andrei Tarkovski. No entanto, não há um preparo, precedente ao filme, a cadência se dá com o percurso. A imagem se mostra ao espectador ao mesmo tempo em que participa da imagem: é a forma de se observar. Dos desdobramentos da imagem múltipla se encadeia todo sentido da obra em que cada parte diz o todo e o todo está em toda parte o tempo todo.

Tempo é o objeto de trabalho do cineasta. O trabalho do tempo é mesmo como o de um escultor, que deve ir aos poucos eliminando os excessos e polindo as arestas até que chegue ao resultado inesperado. À medida em que realiza a obra, o próprio artista se reinventa. Para Tarkovski, “o objetivo de toda arte – a menos, por certo, que seja dirigida ao ‘consumidor’, como se fosse uma mercadoria – é explicar ao próprio artista, e aos que o cercam, para que vive o homem, e qual é o significado da sua existência”. Mesmo que não seja possível explicar, ao menos deve se propor a questão.

Desde que inventada, a arte do cinema suscita discussões quanto aos seu limites. O que é o cinema e o que o distingue da literatura, da música, do teatro, etc, etc, dentro do próprio fazer artístico e do fim da obra. No livro “Esculpir o Tempo”, Tarkovski delineia as margens do cinema definindo o lugar próprio das demais artes dentro do próprio cinema. Ao invés de querer estabelecer de uma vez o que o cinema é ou como deve ser, por meio de princípios e dogmas, fundando escolas ou correntes, Tarkovski procura sempre o caminho, o veio pelo qual deve mover-se a arte do cinema. O cinema não foi inventado uma vez e assim permaneceu, mas está sempre a caminho, sempre sendo reinventado.

No filme de estréia de Tarkovski, média-metragem “O Rolo Compressor e o Violinista”, os personagens antagônicos, o operador de máquina e o menino musicista, formam um laço afetivo e de mútua aprendizagem que contrasta com o dualismo peso-leveza. A primeira experiência estética já é uma dica do caminho que Tarkovski irá seguir na construção de sua obra. Desde a crítica à desumanização do homem na guerra, em “A Infância de Ivan”, e a discussão sobre a função social do artista, em “Andrei Rublev”, até os (considerados) de ficção científica, como o conhecido “Solaris” e o obscuro “Stalker”, bem como os de caráter psicológico, que discutem memória e loucura, por fim, “O Sacrifício”, “O Espelho” e “Nostalgia”, a filmografia tarkovskiana tem uma unidade em sua pluralidade.

A beleza plástica das cenas concretiza e acentua a problemática existencial proposta em cada filme. A densidade posta na superfície provoca no espectador a necessidade de observar e refletir atentamente cada detalhe, toda particularidade. Tarkovski o conduz lentamente por essas veredas que exigem sempre um retorno: o mesmo se faz outro com a travessia.

Neste sentido, perder a pressa sempre estática é ganhar o movimento instantâneo do caminho, o percurso do olhar num horizonte próximo, como num espelho.




Francisco Augusto C. Freitas, graduando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo e integrante do Projeto de Extensão Grupo de Audiovisual (Grav).

17/03/2007


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: «A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe.»

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a, e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a eu nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi já.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que eu a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta a tive nos meus braços,
a minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Embora esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

(Snoopy, psicografado por Pablo Neruda)

16/03/2007

09/03/2007

02/02/2007

Manacá, quando música, brota
na terra, mas
floresce mesmo no mar.

(Casé Lontra Marques)