29/02/2012
05/02/2012
incompleto
eu esperava
sem saber que vinhas
e quando nada esperava
súbita partida
pois sabia sem esperar
que o gesto que abre a porta
é o mesmo na saída
a se repetir incansável
repentinamente
até que não haja porta
nem espera
que tua chegada desde sempre
despedida
24/11/2011
PEDRA PENSA
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pedra-pedra
pedra-palavra
pedra
perpetra
perder-se de si
desprender-se da parte
perder-se de si
desprender-se da parte
dedicar todo
grão à soltura
pedra perdura
pedra dura
aprender a precariedade
pedra perdura
pedra dura
aprender a precariedade
de ser
sempre
pedra presente
pedra-pedra
pedra presente
pedra-pedra
pedra-perda
pedra-pura
pedra propensa
pedra pende
pedra perpassa
pedra preta
pedra presa
pedra tarda
ainda pedra
pedra-pedra
pedra-tempo
pedra propensa
pedra pende
pedra perpassa
pedra preta
pedra presa
pedra tarda
ainda pedra
pedra-pedra
pedra-tempo
17/11/2011
Vitorianos
Sua crise de
identidade, sintoma de uma adolescência tardia, é fruto do autodesprezo – uma
virtude que se aprende em casa, pois autodomínio se descobre sozinho e se
esquece.
Sua
sexualidade desinibida paga o preço de não saber a quem se expor, pelo medo de
ser pego no primeiro ato de contradição.
Sua
nostalgia sem inocência, cega e destrutiva, fuga obstinada, demonstra uma
necessária incoerência entre os modos de sentir e de pensar: pois lugar algum é
como o lar que um dia se perdeu e que nunca houve.
Aliás,
sentimento é uma palavra indemonstrável, que se guarda em papéis na gaveta.
28/10/2011
Pode ser Pó de Ser Emoriô: variações em torno do mesmo tema
Música
do tempo
O material musical deve tornar explícita a
contradição histórica que o sustenta e o atualiza. Esta contradição histórica
significa que o momento presente afirma-se como continuação e negação do
passado para afirmar um futuro incerto a ser construído sobre bases solapadas.
O momento presente compreende-se na tensão entre a negação e a afirmação, entre
a tradição e a novidade, entre a transitoriedade e o impulso de permanência. A
música deste tempo, a música deste lugar, a música de Pó de Ser Emoriô, como variações em torno do mesmo tema, carrega
esta contradição histórica, enquanto mantém e modifica a tradição musical em
vistas de uma atualidade a ser inventada.
“Cê tem fé em quê?”, a um só passo, questiona e
renova a tradição, seja a musical (o congo), seja a religiosa (a Umbanda), ao
suspender e disseminar seu conteúdo (a fé), na multiplicidade de formas que a compõe:
o ponto, o samba, o santo. Assim, a raiz comum dessa tradição de muitos ramos e
frutos, o sincretismo, deixa de ser uma questão puramente religiosa para
tornar-se o fundamento de uma união musical, artística. A música de Umbanderia pergunta não apenas ao
ouvinte, portador da tradição, mas à própria tradição qual é seu fundamento. Tradição
é transmissão e não há transmissão sem ruptura e renovação.
Ao beber na fonte do cancioneiro popular
brasileiro, na antropofagia multiculturalista do Tropicalismo, e ao resgatar
dos Novos Baianos a indissociável ligação entre música e vida, composição e
convivência, isto é, a harmonia musical vital, agora, estes doces “novos
bárbaros”, convidam para o banquete dos loucos, onde quem tem razão não tem
direito a voz, mas a ouvir o que tem a dizer esta tradição que recomeça amanhã.
Canção
da paisagem
Na canção, a melodia não é mero acessório ou
suporte à letra, mas está intimamente ligada ao seu sentido, ou melhor, fornece
um sentido melódico à palavra que,
enquanto poesia, possui outro campo semântico. A entonação destoante de uma
palavra altera seu significado extrínseco, ao passo que o sentido intrínseco
depende da disposição da palavra no papel, enquanto poesia. E ao revés, a
palavra fornece um sentido poético que
não havia na melodia e, assim, ao expandir seu campo semântico e conferir um
sentido que lhe era estranho, cria nesta interseção um campo semiótico em que a
letra se comunica como melodia e a melodia como letra, em sua mútua semelhança
e estranheza, segundo um sentido que, separadamente, cada uma por si, não
conteria, ou seja, um sentido aberto a outros sentidos.
Porém, estas distinções entre melodia e
palavra, significado interno e externo, são arbitrariedades não funcionais,
inúteis, desnecessárias, mas que, apesar de tudo e de si, por serem absurdas,
pretendem apontar para relações insuspeitas entre pares que aparecem como
unidade na canção. Esta disjunção desnecessária dos elementos constitutivos da
melodia é uma vez mais tanto válida quanto inválida para os outros elementos da
música: o ritmo e a harmonia. Se o ritmo é formado por interrupções e a
harmonia por intervalos, de sua junção com a melodia, formada pela sucessão de
notas, a música encontra-se com a poesia na canção: harmonia temporal de
palavras e sons. E enquanto temporal, temporã, a canção precisa ser sempre
refeita, enquanto única e irrepetível, assim que tocada desaparece, para ser
novamente cantada, mais uma vez, única.
É assim que “A Hora da Chuva Cair”, canção que
nasce na paisagem, no mar, ressoa o mundo a ser feito, feito música, poesia,
canção, pois “nada no mundo virá, ninguém virá lhe dizer, qual a receita de
ser”. Pode ser Pó de Ser Emoriô: música
sem receita, mundo sem conserto, ser sem conceito.
.....................
Informações:
Ouça, veja, toque, sinta: http://podeseremorio.tnb.art.br/
E vá: show dia 31 de outubro, 20h, Teatro do Ifes.
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Informações:
Ouça, veja, toque, sinta: http://podeseremorio.tnb.art.br/
E vá: show dia 31 de outubro, 20h, Teatro do Ifes.
08/10/2011
Receita para adoçar a vida
Geleia de limão siciliano
5 ou 6 limões sicilianos
2 copos de água
2 copos de açúcar
Corte os limões ao meio e esprema para obter o
suco. Retire o bagaço com uma colher e coloque-o com as sementes em um saquinho
amarrado (o bagaço libera a pectina, necessária para dar consistência à
geleia). Corte a casca em finas fatias. Em uma panela de fundo grosso, junte o
suco, a casca, a água e o saquinho com o bagaço (se quiser dar um cheirinho a
mais, acrescente cravo e canela). Leve ao lume. Quando ferver, espere um
pouquinho e acrescente o açúcar. Enquanto isso, ouça uma música e mexa de vez
em quando. Cerca de meia hora depois, verifique se está no ponto: coloque uma prova
num pirex e vire. Se não escorrer, está pronto! Para enfeitar o vidro: hortelã
colhido à meia noite depois de um dia de chuva.
02/10/2011
em que nada acontece III
“Procure a
sorte à sua volta, ela pode estar mais próxima do que você imagina”, dizia o
bilhete, que depois perdi.
Usei o
perfume dos bravos – pensei: é preciso coragem para prosseguir. Conversei com
três lobos perdidos numa noite sem lua. Guardei um jasmim sob o chapéu para
perfumar os cabelos. Esperei amanhecer, hora em que os prédios são de uma cor
confusa.
Fiz uma
lista, que depois perdi, de coisas imprecisas que fazer: sair de casa sem
anúncio ou previsão, vagar pela cidade sem destino ou propósito – pensei: quem
não espera não encontra o inesperado. Comprei sapatos que mordem o calcanhar.
Dei com bares e portas fechados, pessoas indecisas como eu e lugares
previsíveis como sempre. Pensei: é preciso coragem para parar.
Sem pensar,
estático, com os olhos ora ao longe ora ao chão, me surpreendi quando um
estranho me perguntou o que faço, realmente: nada. Isto fez estender o desentendido.
Saí só para
só ficar. Assim é, em que nada acontece, como sempre.
Sempre
previsível, nunca provável.
em que nada acontece II
Quase. Zero
muda tudo. Nunca ganhei nada, nem em sorteio, bingo ou coisa parecida. Não que
participasse ou esperasse algo. Nunca me empenhei em nada. Não acredito na
sorte. Aposto, mas nunca em números.
Desconfio de
todo ato. O mínimo é o máximo. Nada fazer exige coragem.
Deram-me um
número: trinta e três. Não, não era o pneumotórax. Sem acreditar (como alguém
que contempla a arquitetura contraditória que os homens erguem em monumento à
ineficácia da duração – tudo perece, penso), aguardo.
Disseram:
trinta e três. Por alguns segundos titubeei. Por gentileza, não por acreditar
(como alguém que ensaia um gesto estúpido e previsível para ser espontâneo – o
que o torna mais estúpido ainda), prossigo.
Não, trinta
e três não é trezentos e trinta. Zero faz toda diferença. É isto.
Dei a volta
ao círculo. No meio do caminho, quase encontrei: Leisa. Parei por alguns
segundos. Não, havia um zero, um redondo G antes de Leisa. Sim, quase, sempre.
Tarde
cheguei a casa, cansado de nada acontecer.
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