08/10/2011

Receita para adoçar a vida


Geleia de limão siciliano

5 ou 6 limões sicilianos
2 copos de água
2 copos de açúcar

Corte os limões ao meio e esprema para obter o suco. Retire o bagaço com uma colher e coloque-o com as sementes em um saquinho amarrado (o bagaço libera a pectina, necessária para dar consistência à geleia). Corte a casca em finas fatias. Em uma panela de fundo grosso, junte o suco, a casca, a água e o saquinho com o bagaço (se quiser dar um cheirinho a mais, acrescente cravo e canela). Leve ao lume. Quando ferver, espere um pouquinho e acrescente o açúcar. Enquanto isso, ouça uma música e mexa de vez em quando. Cerca de meia hora depois, verifique se está no ponto: coloque uma prova num pirex e vire. Se não escorrer, está pronto! Para enfeitar o vidro: hortelã colhido à meia noite depois de um dia de chuva.

02/10/2011

o que é o desejo, senão uma estranha entrega ao inesperado?

em que nada acontece III


“Procure a sorte à sua volta, ela pode estar mais próxima do que você imagina”, dizia o bilhete, que depois perdi.
Usei o perfume dos bravos – pensei: é preciso coragem para prosseguir. Conversei com três lobos perdidos numa noite sem lua. Guardei um jasmim sob o chapéu para perfumar os cabelos. Esperei amanhecer, hora em que os prédios são de uma cor confusa.
Fiz uma lista, que depois perdi, de coisas imprecisas que fazer: sair de casa sem anúncio ou previsão, vagar pela cidade sem destino ou propósito – pensei: quem não espera não encontra o inesperado. Comprei sapatos que mordem o calcanhar. Dei com bares e portas fechados, pessoas indecisas como eu e lugares previsíveis como sempre. Pensei: é preciso coragem para parar.
Sem pensar, estático, com os olhos ora ao longe ora ao chão, me surpreendi quando um estranho me perguntou o que faço, realmente: nada. Isto fez estender o desentendido.
Saí só para só ficar. Assim é, em que nada acontece, como sempre.
Sempre previsível, nunca provável.

em que nada acontece II

Quase. Zero muda tudo. Nunca ganhei nada, nem em sorteio, bingo ou coisa parecida. Não que participasse ou esperasse algo. Nunca me empenhei em nada. Não acredito na sorte. Aposto, mas nunca em números.
Desconfio de todo ato. O mínimo é o máximo. Nada fazer exige coragem.
Deram-me um número: trinta e três. Não, não era o pneumotórax. Sem acreditar (como alguém que contempla a arquitetura contraditória que os homens erguem em monumento à ineficácia da duração – tudo perece, penso), aguardo.
Disseram: trinta e três. Por alguns segundos titubeei. Por gentileza, não por acreditar (como alguém que ensaia um gesto estúpido e previsível para ser espontâneo – o que o torna mais estúpido ainda), prossigo.
Não, trinta e três não é trezentos e trinta. Zero faz toda diferença. É isto.
Dei a volta ao círculo. No meio do caminho, quase encontrei: Leisa. Parei por alguns segundos. Não, havia um zero, um redondo G antes de Leisa. Sim, quase, sempre.
Tarde cheguei a casa, cansado de nada acontecer.

27/08/2011

Muitos de nós

Quando perguntam “que mundo daremos aos nossos filhos?”, deveriam também perguntar “que filhos daremos ao mundo?”

Um, nenhum, ninguém.

25/05/2011

em que nada acontece I

À espera do inesperado, procurei me perder. Vagar pelas ruas, conversar com mendigos, entrar em algum lugar abandonado. Nada aconteceu, como previsto. As portas estavam fechadas, ninguém apareceu e é impossível perder-se em uma cidade planejada. Estúpida ironia. Um dia extraordinariamente normal. Nada belo, nenhum sentimento. Apenas a suspeita de vagar em vão. Não há diferença entre sair sozinho ou acompanhado – a mesma solidão, assumida ou disfarçada. Sempre os óculos escuros a esconder olhos contritos e ressequidos de dias sem dormir, meses sem chuva, anos sem chorar.

24/03/2011

um sonho que não sonhei

Entrei em um antigo cine-teatro, de chão e paredes de madeira, poltronas de tecido vermelho, com uma tela de projeção em um palco redondo. As cortinas estavam abertas. Sentei, apagaram-se as luzes. O filme projetado tinha um aspecto de sonho ou lembrança de infância, como uma fotografia antiga de cujas cores, cenário e contexto a história fora remontada.

Dia ensolarado em uma praia de areia e águas claras. Foco difuso ou concentrado em um ponto impreciso entre a câmera e a cena.

Estava minha mãe, ainda adolescente, de maiô, em pé na areia, levemente inclinada para frente, com as mãos no pescoço e os braços rentes ao corpo. Sua expressão estática, boca aberta, parecia chamar alguém no mar.

À esquerda e mais ao fundo, sentada sob um guarda-sol, de cabelos escuros, estava minha avó, cuja silhueta turva não se distinguia da paisagem.

No mar, brincavam meus tios muito jovens. A cena era cheia de movimento: os braços agitando a água, as penas sacudindo sem tocar o fundo, a gargalhada escancarada nos dentes. Aquele rosto magro de nariz comprido e afilado, era meu tio que nunca conheci. Não consegui focar seu rosto. Quanto mais enquadrava a imagem e ampliava o detalhe, mais se tornava embaçado e indistinguível.

Acenderam-se as luzes. Entrou no palco uma mulher contando ópera. Na cadeira ao meu lado havia um libreto. “A interpretação dos sonhos”, de Freud, era interpretada naquela canção.

Acordei perturbado com aquelas imagens e procurei remontar a história. Perguntei, afinal, quem poderia ter visto aquela cena, quem estaria com a câmera na mão, ou de quem seria aquela lembrança. O único personagem que não era visto era meu avô.