Escreveria uma carta como uma arma apontada para sua cabeça e dispararia palavras à queima-roupa num súbito assalto exigindo tudo aquilo quanto me deves.
Escreveria uma carta em uma parede de vidro para lhe ver através, sentado em sua sala espelhada olhando a si mesmo como quem se perguntasse inocente por sua culpa.
Escreveria uma carta feito um cão faminto e farejaria seu corpo e lamberia sua orelha enquanto estivesses dormindo sem sentir minhas pegadas à sua volta.
Escreveria uma carta como quem se percebesse mudo e gemesse de desespero diante de sua partida.
Mas você distante, parado, acena surdo, à espera de que eu diga adeus.
16/06/2010
09/05/2010
impossibilidades: do silêncio e da solidão
Falar sobre minha solidão é uma dupla impossibilidade: ultrapasso o limite do silêncio, invento um interlocutor ausente. Talvez seja necessário um segundo passo, em sentido contrário: um interlocutor solitário e um eu ausente.
Poderia então falar sobre o andar distraído em meio à multidão anônima numa cidade desconhecida; sobre a estranheza e familiaridade de cada rosto e cada gesto, cada prédio em cada esquina, a repetir-se incansavelmente, do menor ruído, a mínima sombra, o vento na blusa, ao acidente na rua, o choque, os transeuntes, a cena de sempre.
Tudo isto é sólida solidão e silêncio. Tão agudo que a epiderme se rompe e a futura ferida se expõe; tão agudo o vento depois da chuva, o rumor da cortina, o calor através da pele, a veia, o nervo; sem mudar, contudo, a temperatura do corpo, o tato ou o tempo.
Nenhuma permanência. Neste espaço a memória persiste: o contato é distante, o afeto é distante, o amor é distante, e não se fala sobre isso. Então preciso ir tão longe para dizer essas coisas que talvez se repitam, nas ruas e nos dias, como uma contradição permanente, uma falta incontornável, do silêncio, da solidão e da saudade.
Poderia então falar sobre o andar distraído em meio à multidão anônima numa cidade desconhecida; sobre a estranheza e familiaridade de cada rosto e cada gesto, cada prédio em cada esquina, a repetir-se incansavelmente, do menor ruído, a mínima sombra, o vento na blusa, ao acidente na rua, o choque, os transeuntes, a cena de sempre.
Tudo isto é sólida solidão e silêncio. Tão agudo que a epiderme se rompe e a futura ferida se expõe; tão agudo o vento depois da chuva, o rumor da cortina, o calor através da pele, a veia, o nervo; sem mudar, contudo, a temperatura do corpo, o tato ou o tempo.
Nenhuma permanência. Neste espaço a memória persiste: o contato é distante, o afeto é distante, o amor é distante, e não se fala sobre isso. Então preciso ir tão longe para dizer essas coisas que talvez se repitam, nas ruas e nos dias, como uma contradição permanente, uma falta incontornável, do silêncio, da solidão e da saudade.
02/04/2010
distraídos
quando seus olhos não viam o vento
carregando as folhas
e o gesto agressivo do tempo
suas mãos perdiam o tamanho das coisas
carregando as folhas
e o gesto agressivo do tempo
suas mãos perdiam o tamanho das coisas
As bordas da angústia dão os limites do meu corpo, do desejo comprimido em perguntas
Ando passo a passo perplexo.
Parado refaço o trajeto.
Ando passo a passo distraído.
Interrompo o fluxo contraído da vontade.
Deserto do pensamento.
Passo a passo perplexo
Passo perto da palavra sexo
Parada a um pé da porta.
Parado refaço o trajeto.
Ando passo a passo distraído.
Interrompo o fluxo contraído da vontade.
Deserto do pensamento.
Passo a passo perplexo
Passo perto da palavra sexo
Parada a um pé da porta.
Despedida do inverno
o sol a um passo da porta cobre a cama que guarda o sabor do sono sereno e do silencioso despertar na súbita manhã
na densa aridez do fato, irrevogável ato da memória em cacos dos pequenos objetos cotidianos lançados no abandono, decomposição da matéria pelo uso dos sentidos
a lembrança refaz o fato que resiste ao esquecimento e repete o corte, a parte incongruente, a gravidade inversa para alcançar o vôo da janela
cansada de existir
na densa aridez do fato, irrevogável ato da memória em cacos dos pequenos objetos cotidianos lançados no abandono, decomposição da matéria pelo uso dos sentidos
a lembrança refaz o fato que resiste ao esquecimento e repete o corte, a parte incongruente, a gravidade inversa para alcançar o vôo da janela
cansada de existir
ignorância
não acredito em verdades silenciosas,
desconfio de idéias estáticas,
prefiro pensamentos estrábicos
que duvidam de espelhos e de
si mesmos.
desconfio de idéias estáticas,
prefiro pensamentos estrábicos
que duvidam de espelhos e de
si mesmos.
Taxonomia do tóxico (letra F)
A flor, o futuro fruto; a faca, o furto; a força fabricada na fúria; a farsa, a fuga; afã e fadiga; a fé no futuro e na fortuna; a falsa felicidade, a falta de fragilidade; a fome e a feiúra; a feira e a fartura; a fruta, a folha; a fita, o fígado; o falo, a fala, a fenda; fonema, figura; o fascículo e o folhetim; o fascínio e o festim; a fila, a faísca, o fio; a ferida e o fim.
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