02/04/2010

"o que dá na telha escorrega"

sensorium

Primeira experiência sonora em quatro partes ao todo

1. válvula de descarga
2. motor de geladeira
3. dilatação do piso
4. água em ebulição

(combiná-las de diferentes formas)

música do vento

Linhas de nylon de diversos comprimentos estendidas verticalmente e dispostas lado a lado ao longo da praia (ou em outro lugar com vento) produzindo uma harmonia.

conversa com manoel

irmanei com pedras

nossa harmonia quieta
tem chão e coágulos
de chuva e vento

me acento onde quer
a gravidez do mundo
uma permanência impossível

nesse estado de pedra
fragmento de estátua
ponte e possível
vôo

conversa com caeiro

"pensar incomoda como andar na chuva"
quando o vento é contrário
e as calçadas empoçam

os homens conversam sozinhos
atrás das janelas
habituados ao silêncio
após as perguntas

o céu feito chumbo
ou cinza de incêndio
...

21/03/2010

sua palavra corrosiva
rasga minha pele
segura meu passo
a um passo da porta

– a dor incurável
da impossibilidade do retorno –

resta-me seguir outro
caminho improvável
caso amanheça
e eu volte a dormir.

Deus é um número irracional.

As tardes turvas de outono e as partes do tempo não lembradas, todavia vividas até o momento da partida, eram impregnadas de uma habitual solidão.


Faço da minha subsistência parte da existência
depois de fazer da existência subsistência
cuido de cada hábito para morrer a tempo de acordar
no labirinto circular em que me procuro.

(inventar uma pergunta convexa)
as nuvens nos meus olhos vagos
o silêncio da espera abandonada:
o tempo se devora.

a chuva sobre a pálpebra confusa
o choro represado da angústia:
o tempo se demora.

as nuvens nos meus olhos fechados
no parapeito da memória:
o tempo se desdobra.

teu corpo nublado
interroga minha mão:
o tempo se devora.

no meu corpo redescoberto
um sol possível
de ser pensado.
em matéria de tempo
o tempo da matéria
não é o mesmo:
da árvore,
da pedra,
da árvore
do outro lado
da pedra.

o fim do horizonte não há.