Toda via é a mesma.
Todavia há outras.
Quem vê?
Quem vai?
(2006)
20/03/2010
DESCONCERTO DE PIANO
Primeiro movimento
Prelúdio em si menor (um blues)
Um tanto de tango tocando
Um pouco samba torto também
Jazz fusion confusion
Com fado fora do tom
Muda o modo
Muda o mundo
Kind of Blue
Segundo movimento
Interlúdio
Silêncio
Terceiro movimento
Trecho de uma Resolução:
Ííí dabi-ibadá budê
Música incidental: Epístrofe
Quarto movimento
Interlúdio
Sol
Quinto movimento
MÚSICA:
violoncelo: melancolia: cordas arqueadas;
violão: angústia: corpo vazio;
piano: tato: dedos cravados;
trompa: sopro: círculo.
MÚSICA:
palavra-imagem.
MÚSICA quase não é som.
(2006)
Prelúdio em si menor (um blues)
Um tanto de tango tocando
Um pouco samba torto também
Jazz fusion confusion
Com fado fora do tom
Muda o modo
Muda o mundo
Kind of Blue
Segundo movimento
Interlúdio
Silêncio
Terceiro movimento
Trecho de uma Resolução:
Ííí dabi-ibadá budê
Música incidental: Epístrofe
Quarto movimento
Interlúdio
Sol
Quinto movimento
MÚSICA:
violoncelo: melancolia: cordas arqueadas;
violão: angústia: corpo vazio;
piano: tato: dedos cravados;
trompa: sopro: círculo.
MÚSICA:
palavra-imagem.
MÚSICA quase não é som.
(2006)
NÃO SE PODE SAIR COM TOURO NA RUA
Não fosse o fim da festa (não conhecia ninguém) – mas meu irmão insistiu – não permitiria que ele prosseguisse – eu sonhava (começou a chover).
(Olhei o céu e nada). No banho, vendo meus olhos abertos, retomou o assunto – o que havíamos conversado? Permaneci na cama com um sorriso de quem ouve. Estava se limpando da noite, dos lençóis, do suor, do meu corpo, da lembrança da noite, do suor do meu corpo. (Olhei o céu e nuvens).
Entrei (não havia ninguém na casa), peguei algumas roupas – alguns papéis no chão –, sentei.
“Me ajuda a lavar a mão?”
Era muito pequena deitada no assoalho.
“O que houve?”
Não tinha um braço e uma perna.
“Nada...”
Hematomas amarelecidos e azuis.
“Como assim?”
Era muito pequena sentada no lavabo.
Não. Não a conheço. Olhos vermelhos? Um pouco de pó, talvez. Senta. Quer? Não, não a conheço. Só nos falamos uma vez. Ela estava sozinha. Precisava de atenção. Mas não a conheço. Parece bonita. Não. Não lembro o que conversamos. Era sobre ela. Estava sozinha. Estávamos na sala. Um pouco de pó. Ela estava sozinha. Precisava de atenção. Não. Não lembro. Eu sei o que eu queria. Queria sexo. Só sexo. Um pouco de pó. Então acho que ela queria. Não sei. Foi tudo muito rápido. Não sei o nome. Não lembro. Só sexo. Ela estava sozinha. Não fiz nada. Aliás. Ela nem gritou. Entende?
Fechou o registro, enxugou o sexo, continuou o assunto (como?), repetiu, falou atrás da toalha, veio em minha direção, (como?) te amo. Já estava em cima de mim, meu amor, repetia, meu amor, sua pele ainda fria do banho, sua boca com gosto de pasta, me chupa, meu amor, goza, meu amor, meu amor... Alisou meu rosto, beijou, levantou, lavou o sexo, falou algumas palavras, virei de lado e fechei os olhos.
Saí de sexo exposto, andei na calçada, alguém parou e me disse alguma coisa, sorriu e se foi, continuei na calçada, atravessei um jardim, não lembro qual casa, um pai comia o filho no quarto, voltei pra calçada, meu irmão veio falar comigo. Não. Não lembro. Era importante?
Mandei tomar no cu. Vesti minha roupa. Preciso ir. Preciso ir.
(2006)
Não fosse o fim da festa (não conhecia ninguém) – mas meu irmão insistiu – não permitiria que ele prosseguisse – eu sonhava (começou a chover).
(Olhei o céu e nada). No banho, vendo meus olhos abertos, retomou o assunto – o que havíamos conversado? Permaneci na cama com um sorriso de quem ouve. Estava se limpando da noite, dos lençóis, do suor, do meu corpo, da lembrança da noite, do suor do meu corpo. (Olhei o céu e nuvens).
Entrei (não havia ninguém na casa), peguei algumas roupas – alguns papéis no chão –, sentei.
“Me ajuda a lavar a mão?”
Era muito pequena deitada no assoalho.
“O que houve?”
Não tinha um braço e uma perna.
“Nada...”
Hematomas amarelecidos e azuis.
“Como assim?”
Era muito pequena sentada no lavabo.
Não. Não a conheço. Olhos vermelhos? Um pouco de pó, talvez. Senta. Quer? Não, não a conheço. Só nos falamos uma vez. Ela estava sozinha. Precisava de atenção. Mas não a conheço. Parece bonita. Não. Não lembro o que conversamos. Era sobre ela. Estava sozinha. Estávamos na sala. Um pouco de pó. Ela estava sozinha. Precisava de atenção. Não. Não lembro. Eu sei o que eu queria. Queria sexo. Só sexo. Um pouco de pó. Então acho que ela queria. Não sei. Foi tudo muito rápido. Não sei o nome. Não lembro. Só sexo. Ela estava sozinha. Não fiz nada. Aliás. Ela nem gritou. Entende?
Fechou o registro, enxugou o sexo, continuou o assunto (como?), repetiu, falou atrás da toalha, veio em minha direção, (como?) te amo. Já estava em cima de mim, meu amor, repetia, meu amor, sua pele ainda fria do banho, sua boca com gosto de pasta, me chupa, meu amor, goza, meu amor, meu amor... Alisou meu rosto, beijou, levantou, lavou o sexo, falou algumas palavras, virei de lado e fechei os olhos.
Saí de sexo exposto, andei na calçada, alguém parou e me disse alguma coisa, sorriu e se foi, continuei na calçada, atravessei um jardim, não lembro qual casa, um pai comia o filho no quarto, voltei pra calçada, meu irmão veio falar comigo. Não. Não lembro. Era importante?
Mandei tomar no cu. Vesti minha roupa. Preciso ir. Preciso ir.
(2006)
14/01/2010
tenho de reinventar minha existência.
uma cidade em ruínas que se apaga ao menor ruído da máquina estática do tempo. nos espaços vazios dos escombros se arriscam meus projetos, que se desfazem antes mesmo de serem erguidos.
tenho de encontrar minha solidão. talvez haja um alento nesse silêncio.
penso que cada inseto pode ser um Gregor, ou um escritor, ou outro eu.
penso: existo? pensar só pirora as coisas.
(20.11.09)
uma cidade em ruínas que se apaga ao menor ruído da máquina estática do tempo. nos espaços vazios dos escombros se arriscam meus projetos, que se desfazem antes mesmo de serem erguidos.
tenho de encontrar minha solidão. talvez haja um alento nesse silêncio.
penso que cada inseto pode ser um Gregor, ou um escritor, ou outro eu.
penso: existo? pensar só pirora as coisas.
(20.11.09)
13/01/2010
Diário de bordo. Viagem a Brasília.

25.11.09
Um horizonte, um mar onde encostar os olhos e umedecer a boca, neste caminho que não termina.
Vertigem: sensação de queda num abismo.
Origem: perda de horizonte.
26.11.09
Brasília é uma cidade como outra qualquer. Os prédios encobrem a paisagem, o caos engole a ordem. A cidade torna do concreto ao croqui. Resta o traço, o rastro, a memória em forma de souvenir. A cidade tem de ser desmontada, reinventada a cada segundo. Onde flutuam seus espelhos, seus vidros, o lápis não descobre, o insignificante fragmento que sustenta uma catedral, a leveza do tempo inacabado, da cidade abandonada.
A cidade que me habita desmorona incessantemente, pedra a pedra ao pó reduz-se sua possível existência, poeira de matéria incerta, disforme.
Tenho de reinventar minha existência. Pedra a pedra, palavra por palavra.
Espero encontrar em alguma esquina remota o ponto de fuga onde o destino não me veja correndo de mim mesmo.
Para onde retorno se não sei de onde parti?
(Imagem: croqui de Lúcio Costa)

25.11.09
Um horizonte, um mar onde encostar os olhos e umedecer a boca, neste caminho que não termina.
Vertigem: sensação de queda num abismo.
Origem: perda de horizonte.
26.11.09
Brasília é uma cidade como outra qualquer. Os prédios encobrem a paisagem, o caos engole a ordem. A cidade torna do concreto ao croqui. Resta o traço, o rastro, a memória em forma de souvenir. A cidade tem de ser desmontada, reinventada a cada segundo. Onde flutuam seus espelhos, seus vidros, o lápis não descobre, o insignificante fragmento que sustenta uma catedral, a leveza do tempo inacabado, da cidade abandonada.
A cidade que me habita desmorona incessantemente, pedra a pedra ao pó reduz-se sua possível existência, poeira de matéria incerta, disforme.
Tenho de reinventar minha existência. Pedra a pedra, palavra por palavra.
Espero encontrar em alguma esquina remota o ponto de fuga onde o destino não me veja correndo de mim mesmo.
Para onde retorno se não sei de onde parti?
(Imagem: croqui de Lúcio Costa)
06/03/2009
ando abismado, perplexo
absorto, perturbado com tudo
ando abatido, complexo
absurdo, conturbado contudo
ando no abismo, reflexo
quase morto, vazio do meu corpo
ando obscuro, recluso
obtuso, confuso até o pescoço
ando abstrato, fluxo
obstruso, aborto da vontade
ando obsceno, aceno para o desejo
abissal, aberto pelo medo
ando mesmo cansado, convexo
disperso o mundo em fragmentos
ando angustiado até os pés
rasgarem e crescerem bolhas
de ar nos meus olhos
absorto, perturbado com tudo
ando abatido, complexo
absurdo, conturbado contudo
ando no abismo, reflexo
quase morto, vazio do meu corpo
ando obscuro, recluso
obtuso, confuso até o pescoço
ando abstrato, fluxo
obstruso, aborto da vontade
ando obsceno, aceno para o desejo
abissal, aberto pelo medo
ando mesmo cansado, convexo
disperso o mundo em fragmentos
ando angustiado até os pés
rasgarem e crescerem bolhas
de ar nos meus olhos
08/02/2009
30/01/2009
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