26/09/2007



Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.

(Manoel de Barros)

Lugar em que há decadência.
Em que as casas começam a morrer e são habitadas por
morcegos.
Em que os capins lhes entram, aos homens, casas portas
a dentro.
Em que os capins lhes subam pernas acima, seres a
dentro.
Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros.
Terrenos sitiados pelo abandono, apropriados à indigência.
Onde os homens terão a força da indigência.
E as ruínas darão frutos.

(Manoel de Barros)

Que a palavra parede não seja símbolo
de obstáculos à liberdade
nem de desejos reprimidos
nem de proibições na infância,
etc. (essas coisas que acham os
reveladores de arcanos mentais)
Não.
Parede que me seduz é de tijolo, adobe
preposto ao abdomen de uma casa.
Eu tenho um gosto rasteiro de
ir por reentrâncias
baixar em rachaduras de paredes
por frinchas, por gretas - com lascívia de hera.
Sobre o tijolo ser um lábio cego.
Tal um verme que iluminasse.

(Manoel de Barros)

10/09/2007

PEDRA-TEMPO

esquecer ser pedra
ser-se sem si
perder-se da parte


dedicar todo grão à soltura
pedra perdura
pedra-pedra

desaprender perenidade
e ser sempre
pedra perene

pedra-perda
pedra-possibilidade

chão pedra-pensa
pedra-pressa
e perpassa

chuva pedra
tudo pedra-pensa
pedra-tarda

ainda pedra
pedra-pedra
cinza

29/08/2007

um pequeno e passageiro
pássaro – na boca
uma sede de mundo.

03/08/2007

"Quando é preciso despedir-se: Daquilo que sabes conhecer e medir, é preciso que te despeças, pelo menos por um tempo. Somente depois de teres deixado a cidade verás a que altura suas torrres se elevam acima das casas." (Nietzsche)

24/07/2007

Prefácio a um livro incompleto.

- Não. Este livro não. Ciência é coisa antiga. Este livro não. A humanidade é muito velha.

O que nos mata é a nossa ancestralidade.

Referências. Ausências inquietas.

Partir. Parir ao avesso a si mesmo outro.

O que nos afeta é o que nos afasta.

10/07/2007

silêncio insiste
inconsistente paisagem
-
refaz outra
passagem
-
indiferente e distraído
híbrido sempre
inconscientemente silencioso
destino?
desatino de ser
de trás pra
sempre