14/06/2007

Sangra o sol depois da noite
irrealizada

morre o próprio nome
no limiar da
esperança envelhecida

repete repete
repete o mar

menos o sol
(silêncio inquieto)

Tentei a letra de uma música. Depois, nem arrisquei ar entre os dentes, mudei de coragem. Sempre perco núvem como perco rumo.

03/06/2007

sobre tudo à frente sempre pedra ontem
ausências inquietas

sentido disso?
que sentido?

veja
(o homem é um

vazio
afastado)

28/05/2007



cedo demais, o amor – sede de mar –, amarra a vida em vento

07/05/2007

perco o ar a meio caminho do pulmão
perco o chão a meio passo
perco a razão à mínima vontade

perco no ar a respiração
perco o passo a meio chão
perco a vontade e a verdade
a meio caminho do não.

02/05/2007

parto reverso
de um verso
parido

caminho
(quase mudo rumo)
que já não
se refaz

distante
vai deixando de
existir feito
esquecimento

de natureza estranha
as pedras no lugar
das mesmas

verdades que nascem
póstumas

26/04/2007


CANÇÃO DE OUTONO


O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida...
Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
de carícia a contrapelo...
Partir, ó alma, que dizes?
Colhe as horas, em suma...
mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte alguma!

(Mário Quintana)

20/04/2007

quando me convidavas para
passarmos cedo
o sol

juntos só
os grãos de
mar
que com os olhos
colhia

calmo
era mesmo tarde em
chama
o sol se
pondo onde é
parte agora

de tudo lembro como
se só
perdesse

o medo de que não
seria
aquilo que antes de
ser não foi

mar
insiste ruínas

quando tão
breve
partistes

sem direção
o mar
existe

07/04/2007

UM MOMENTO MOVIMENTADO
Veredas de Andrei Tarkovski


Tempo – é preciso perder a pressa e ganhar o ritmo do olhar, do pensamento. Esta é a primeira condição para assistir a um filme de Andrei Tarkovski. No entanto, não há um preparo, precedente ao filme, a cadência se dá com o percurso. A imagem se mostra ao espectador ao mesmo tempo em que participa da imagem: é a forma de se observar. Dos desdobramentos da imagem múltipla se encadeia todo sentido da obra em que cada parte diz o todo e o todo está em toda parte o tempo todo.

Tempo é o objeto de trabalho do cineasta. O trabalho do tempo é mesmo como o de um escultor, que deve ir aos poucos eliminando os excessos e polindo as arestas até que chegue ao resultado inesperado. À medida em que realiza a obra, o próprio artista se reinventa. Para Tarkovski, “o objetivo de toda arte – a menos, por certo, que seja dirigida ao ‘consumidor’, como se fosse uma mercadoria – é explicar ao próprio artista, e aos que o cercam, para que vive o homem, e qual é o significado da sua existência”. Mesmo que não seja possível explicar, ao menos deve se propor a questão.

Desde que inventada, a arte do cinema suscita discussões quanto aos seu limites. O que é o cinema e o que o distingue da literatura, da música, do teatro, etc, etc, dentro do próprio fazer artístico e do fim da obra. No livro “Esculpir o Tempo”, Tarkovski delineia as margens do cinema definindo o lugar próprio das demais artes dentro do próprio cinema. Ao invés de querer estabelecer de uma vez o que o cinema é ou como deve ser, por meio de princípios e dogmas, fundando escolas ou correntes, Tarkovski procura sempre o caminho, o veio pelo qual deve mover-se a arte do cinema. O cinema não foi inventado uma vez e assim permaneceu, mas está sempre a caminho, sempre sendo reinventado.

No filme de estréia de Tarkovski, média-metragem “O Rolo Compressor e o Violinista”, os personagens antagônicos, o operador de máquina e o menino musicista, formam um laço afetivo e de mútua aprendizagem que contrasta com o dualismo peso-leveza. A primeira experiência estética já é uma dica do caminho que Tarkovski irá seguir na construção de sua obra. Desde a crítica à desumanização do homem na guerra, em “A Infância de Ivan”, e a discussão sobre a função social do artista, em “Andrei Rublev”, até os (considerados) de ficção científica, como o conhecido “Solaris” e o obscuro “Stalker”, bem como os de caráter psicológico, que discutem memória e loucura, por fim, “O Sacrifício”, “O Espelho” e “Nostalgia”, a filmografia tarkovskiana tem uma unidade em sua pluralidade.

A beleza plástica das cenas concretiza e acentua a problemática existencial proposta em cada filme. A densidade posta na superfície provoca no espectador a necessidade de observar e refletir atentamente cada detalhe, toda particularidade. Tarkovski o conduz lentamente por essas veredas que exigem sempre um retorno: o mesmo se faz outro com a travessia.

Neste sentido, perder a pressa sempre estática é ganhar o movimento instantâneo do caminho, o percurso do olhar num horizonte próximo, como num espelho.




Francisco Augusto C. Freitas, graduando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo e integrante do Projeto de Extensão Grupo de Audiovisual (Grav).