07/04/2007

UM MOMENTO MOVIMENTADO
Veredas de Andrei Tarkovski


Tempo – é preciso perder a pressa e ganhar o ritmo do olhar, do pensamento. Esta é a primeira condição para assistir a um filme de Andrei Tarkovski. No entanto, não há um preparo, precedente ao filme, a cadência se dá com o percurso. A imagem se mostra ao espectador ao mesmo tempo em que participa da imagem: é a forma de se observar. Dos desdobramentos da imagem múltipla se encadeia todo sentido da obra em que cada parte diz o todo e o todo está em toda parte o tempo todo.

Tempo é o objeto de trabalho do cineasta. O trabalho do tempo é mesmo como o de um escultor, que deve ir aos poucos eliminando os excessos e polindo as arestas até que chegue ao resultado inesperado. À medida em que realiza a obra, o próprio artista se reinventa. Para Tarkovski, “o objetivo de toda arte – a menos, por certo, que seja dirigida ao ‘consumidor’, como se fosse uma mercadoria – é explicar ao próprio artista, e aos que o cercam, para que vive o homem, e qual é o significado da sua existência”. Mesmo que não seja possível explicar, ao menos deve se propor a questão.

Desde que inventada, a arte do cinema suscita discussões quanto aos seu limites. O que é o cinema e o que o distingue da literatura, da música, do teatro, etc, etc, dentro do próprio fazer artístico e do fim da obra. No livro “Esculpir o Tempo”, Tarkovski delineia as margens do cinema definindo o lugar próprio das demais artes dentro do próprio cinema. Ao invés de querer estabelecer de uma vez o que o cinema é ou como deve ser, por meio de princípios e dogmas, fundando escolas ou correntes, Tarkovski procura sempre o caminho, o veio pelo qual deve mover-se a arte do cinema. O cinema não foi inventado uma vez e assim permaneceu, mas está sempre a caminho, sempre sendo reinventado.

No filme de estréia de Tarkovski, média-metragem “O Rolo Compressor e o Violinista”, os personagens antagônicos, o operador de máquina e o menino musicista, formam um laço afetivo e de mútua aprendizagem que contrasta com o dualismo peso-leveza. A primeira experiência estética já é uma dica do caminho que Tarkovski irá seguir na construção de sua obra. Desde a crítica à desumanização do homem na guerra, em “A Infância de Ivan”, e a discussão sobre a função social do artista, em “Andrei Rublev”, até os (considerados) de ficção científica, como o conhecido “Solaris” e o obscuro “Stalker”, bem como os de caráter psicológico, que discutem memória e loucura, por fim, “O Sacrifício”, “O Espelho” e “Nostalgia”, a filmografia tarkovskiana tem uma unidade em sua pluralidade.

A beleza plástica das cenas concretiza e acentua a problemática existencial proposta em cada filme. A densidade posta na superfície provoca no espectador a necessidade de observar e refletir atentamente cada detalhe, toda particularidade. Tarkovski o conduz lentamente por essas veredas que exigem sempre um retorno: o mesmo se faz outro com a travessia.

Neste sentido, perder a pressa sempre estática é ganhar o movimento instantâneo do caminho, o percurso do olhar num horizonte próximo, como num espelho.




Francisco Augusto C. Freitas, graduando em Filosofia pela Universidade Federal do Espírito Santo e integrante do Projeto de Extensão Grupo de Audiovisual (Grav).

17/03/2007


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: «A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe.»

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a, e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a eu nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi já.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que eu a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta a tive nos meus braços,
a minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Embora esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

(Snoopy, psicografado por Pablo Neruda)

16/03/2007

09/03/2007

02/02/2007

Manacá, quando música, brota
na terra, mas
floresce mesmo no mar.

(Casé Lontra Marques)

21/01/2007

Triste
como uma velha porta
quando se fecha (quando me deito)
e range (ranjo)
nas dobradiças (os dentes).

28/12/2006

LEMBRANÇAS de 2006

26 de maio – 80 anos de Miles Davis
26 de julho – 80 anos de Moacir Santos
06 de agosto – morre Moacir Santos
23 de agosto – morre Maynard Ferguson
23 de setembro – 80 anos de John Coltrane
14 de dezembro – morre Sivuca
24 de dezembro – morre Braguinha
25 de dezembro – morre James Brown
28 de dezembro – 20 anos de morte de Andrei Tarkovski

22/12/2006

"O vento corta os seres pelo meio.
Só um desejo de nitidez ampara o mundo...
Faz sol. Fez chuva. E a ventania
Esparrama os trombones das nuvens no azul.
Ninguém chega a ser um nesta cidade,
As pombas se agarram nos arranhacéus, faz chuva.
Faz frio. E faz angústia... É este vento violento
Que arrebenta dos grotões da terra humana
Exigindo céu, paz e alguma primavera. "

(Momento/abril de 1937 - Mário de Andrade)

17/12/2006



"É um crime ignorar o pôr-do-sol, as primeiras neves, os pássaros e os sonhos."

(Andrei Tarkovski)