02/06/2014

Apiáceo

Acordei com uma abelha no travesseiro.
Não sei se estava morta ou dormindo.
Passei o dia inteiro perguntando
se eu sonhei com ela ou ela comigo.
Salvador Dali - Sonho causado pelo voo de uma abelha

19/12/2012

Por que chove quando as roupas se espreguiçam no varal?


18/07/2012

St. John



Jazz Container: nome que busca assonância, consonância com outro nome: John Coltrane.

Improvisos transitórios. Aprender a solar, arriscar voo livre. Recomeçar a cada frase, incansavelmente, tomar fôlego, ininterruptamente. Buscar a sonoridade da palavra, a palavra enquanto som, puro soar, melodia.

Tentativa de traduzir música em palavras.

Da capo. É preciso tocar o tema.

Ontem fez 45 anos de morte de Coltrane, o músico que mudou a história da música e a vida de muitos.
Sem saber disso, ontem (17/07) ouvi várias vezes minha música favorita: My Favorite Things. Hoje acordei com sede de ouvi-lo mais. O dia começou com Acknowledgement, A Love Supreme. Dessa imersão, ainda dentro do quarto, sai para dar um passeio: Central Park West. Fiquei emocionado. A música tocou-me profundamente, como há muito não acontecia. Então, a versão apaixonada e apaixonante de José James, que transcreveu-traduziu cada som.

Há uma matemática que estrutura a música, um ciclo de terças menores, que dão o tom melancólico; pequenos passos, um passeio no parque. Coltrane expressou a paisagem em sua música.



Sempre tive a sensação de ouvir Coltrane falar, como se o sax fosse parte de seu corpo. Então aprendi que o som é maior que a palavra.

É preciso aprender novamente a ouvir.

E também a dizer adeus.




Keith Jarrett, após a morte do idolo: De repente, todos sentimos um vazio imenso. Mas não era isso que ele desejaria: ele teria preferido que ficássemos com mais espaço para fazer aquilo que devíamos fazer.

Archie SheppEle provou que é possível criar um solo trinta ou quarenta minutos de música ininterrupta, constantemente construtiva, original e imaginativa. E mostrou-nos a todos que deveríamos ter bastante resistência mental e física para suporte esses longos voos.

17/06/2012

NADA DE NOVO
TUDO DE NOVO

14/03/2012

A esperança é a última que nasce


numa cadeira arcaica
chamada Uzina Esperança
petrificado contemplo
uma paisagem em decomposição

parca luz no fim da tarde
sobre as roupas encardidas do varal
úmidas de esperar por um sol sem cor

que nunca nasce
desde sempre
esquecido

tempo comprimido
espaço dilatado
instante ínfimo no infinito

05/03/2012

em que nada acontece IV



com angústia e lentidão preparei-me para o imprevisível, banhei-me de perfume e flores, com olhar distraído e passos imprecisos procurei entre portas e janelas, e quando cheguei, não havia ninguém – era tarde demais, ou cedo demais para esperar.

29/02/2012

quase sonho



ruas sem nome
casas sem número
ninguém nem nada
a noite apenas
densa e interminável



05/02/2012

Banksy

A nós, gente, só foi dada
essa maldita capacidade,
transformar amor em nada.

                          Leminski

incompleto


eu esperava
sem saber que vinhas

e quando nada esperava
       súbita partida

pois sabia sem esperar
que o gesto que abre a porta
   é o mesmo na saída

a se repetir incansável
  repentinamente

      até que não haja porta
nem espera

que tua chegada desde sempre
                          despedida


24/11/2011

PEDRA PENSA


pedra-pedra
pedra-palavra

pedra perpetra
perder-se de si
desprender-se da parte

dedicar todo grão à soltura
pedra perdura
pedra dura

aprender a precariedade
de ser sempre
pedra presente

pedra-pedra
pedra-perda
pedra-pura

pedra propensa
pedra pende
pedra perpassa

pedra preta
pedra presa
pedra tarda

ainda pedra
pedra-pedra
pedra-tempo

17/11/2011

Vitorianos


Sua crise de identidade, sintoma de uma adolescência tardia, é fruto do autodesprezo – uma virtude que se aprende em casa, pois autodomínio se descobre sozinho e se esquece.

Sua sexualidade desinibida paga o preço de não saber a quem se expor, pelo medo de ser pego no primeiro ato de contradição.

Sua nostalgia sem inocência, cega e destrutiva, fuga obstinada, demonstra uma necessária incoerência entre os modos de sentir e de pensar: pois lugar algum é como o lar que um dia se perdeu e que nunca houve.

Aliás, sentimento é uma palavra indemonstrável, que se guarda em papéis na gaveta.

28/10/2011

Pode ser Pó de Ser Emoriô: variações em torno do mesmo tema


Música do tempo

O material musical deve tornar explícita a contradição histórica que o sustenta e o atualiza. Esta contradição histórica significa que o momento presente afirma-se como continuação e negação do passado para afirmar um futuro incerto a ser construído sobre bases solapadas. O momento presente compreende-se na tensão entre a negação e a afirmação, entre a tradição e a novidade, entre a transitoriedade e o impulso de permanência. A música deste tempo, a música deste lugar, a música de Pó de Ser Emoriô, como variações em torno do mesmo tema, carrega esta contradição histórica, enquanto mantém e modifica a tradição musical em vistas de uma atualidade a ser inventada.

“Cê tem fé em quê?”, a um só passo, questiona e renova a tradição, seja a musical (o congo), seja a religiosa (a Umbanda), ao suspender e disseminar seu conteúdo (a fé), na multiplicidade de formas que a compõe: o ponto, o samba, o santo. Assim, a raiz comum dessa tradição de muitos ramos e frutos, o sincretismo, deixa de ser uma questão puramente religiosa para tornar-se o fundamento de uma união musical, artística. A música de Umbanderia pergunta não apenas ao ouvinte, portador da tradição, mas à própria tradição qual é seu fundamento. Tradição é transmissão e não há transmissão sem ruptura e renovação.

Ao beber na fonte do cancioneiro popular brasileiro, na antropofagia multiculturalista do Tropicalismo, e ao resgatar dos Novos Baianos a indissociável ligação entre música e vida, composição e convivência, isto é, a harmonia musical vital, agora, estes doces “novos bárbaros”, convidam para o banquete dos loucos, onde quem tem razão não tem direito a voz, mas a ouvir o que tem a dizer esta tradição que recomeça amanhã.

Canção da paisagem

Na canção, a melodia não é mero acessório ou suporte à letra, mas está intimamente ligada ao seu sentido, ou melhor, fornece um sentido melódico à palavra que, enquanto poesia, possui outro campo semântico. A entonação destoante de uma palavra altera seu significado extrínseco, ao passo que o sentido intrínseco depende da disposição da palavra no papel, enquanto poesia. E ao revés, a palavra fornece um sentido poético que não havia na melodia e, assim, ao expandir seu campo semântico e conferir um sentido que lhe era estranho, cria nesta interseção um campo semiótico em que a letra se comunica como melodia e a melodia como letra, em sua mútua semelhança e estranheza, segundo um sentido que, separadamente, cada uma por si, não conteria, ou seja, um sentido aberto a outros sentidos.

Porém, estas distinções entre melodia e palavra, significado interno e externo, são arbitrariedades não funcionais, inúteis, desnecessárias, mas que, apesar de tudo e de si, por serem absurdas, pretendem apontar para relações insuspeitas entre pares que aparecem como unidade na canção. Esta disjunção desnecessária dos elementos constitutivos da melodia é uma vez mais tanto válida quanto inválida para os outros elementos da música: o ritmo e a harmonia. Se o ritmo é formado por interrupções e a harmonia por intervalos, de sua junção com a melodia, formada pela sucessão de notas, a música encontra-se com a poesia na canção: harmonia temporal de palavras e sons. E enquanto temporal, temporã, a canção precisa ser sempre refeita, enquanto única e irrepetível, assim que tocada desaparece, para ser novamente cantada, mais uma vez, única.

É assim que “A Hora da Chuva Cair”, canção que nasce na paisagem, no mar, ressoa o mundo a ser feito, feito música, poesia, canção, pois “nada no mundo virá, ninguém virá lhe dizer, qual a receita de ser”. Pode ser Pó de Ser Emoriô: música sem receita, mundo sem conserto, ser sem conceito.
.....................
Informações:
Ouça, veja, toque, sinta: http://podeseremorio.tnb.art.br/
E vá: show dia 31 de outubro, 20h, Teatro do Ifes.

08/10/2011

Receita para adoçar a vida


Geleia de limão siciliano

5 ou 6 limões sicilianos
2 copos de água
2 copos de açúcar

Corte os limões ao meio e esprema para obter o suco. Retire o bagaço com uma colher e coloque-o com as sementes em um saquinho amarrado (o bagaço libera a pectina, necessária para dar consistência à geleia). Corte a casca em finas fatias. Em uma panela de fundo grosso, junte o suco, a casca, a água e o saquinho com o bagaço (se quiser dar um cheirinho a mais, acrescente cravo e canela). Leve ao lume. Quando ferver, espere um pouquinho e acrescente o açúcar. Enquanto isso, ouça uma música e mexa de vez em quando. Cerca de meia hora depois, verifique se está no ponto: coloque uma prova num pirex e vire. Se não escorrer, está pronto! Para enfeitar o vidro: hortelã colhido à meia noite depois de um dia de chuva.

02/10/2011

o que é o desejo, senão uma estranha entrega ao inesperado?

em que nada acontece III


“Procure a sorte à sua volta, ela pode estar mais próxima do que você imagina”, dizia o bilhete, que depois perdi.
Usei o perfume dos bravos – pensei: é preciso coragem para prosseguir. Conversei com três lobos perdidos numa noite sem lua. Guardei um jasmim sob o chapéu para perfumar os cabelos. Esperei amanhecer, hora em que os prédios são de uma cor confusa.
Fiz uma lista, que depois perdi, de coisas imprecisas que fazer: sair de casa sem anúncio ou previsão, vagar pela cidade sem destino ou propósito – pensei: quem não espera não encontra o inesperado. Comprei sapatos que mordem o calcanhar. Dei com bares e portas fechados, pessoas indecisas como eu e lugares previsíveis como sempre. Pensei: é preciso coragem para parar.
Sem pensar, estático, com os olhos ora ao longe ora ao chão, me surpreendi quando um estranho me perguntou o que faço, realmente: nada. Isto fez estender o desentendido.
Saí só para só ficar. Assim é, em que nada acontece, como sempre.
Sempre previsível, nunca provável.

em que nada acontece II

Quase. Zero muda tudo. Nunca ganhei nada, nem em sorteio, bingo ou coisa parecida. Não que participasse ou esperasse algo. Nunca me empenhei em nada. Não acredito na sorte. Aposto, mas nunca em números.
Desconfio de todo ato. O mínimo é o máximo. Nada fazer exige coragem.
Deram-me um número: trinta e três. Não, não era o pneumotórax. Sem acreditar (como alguém que contempla a arquitetura contraditória que os homens erguem em monumento à ineficácia da duração – tudo perece, penso), aguardo.
Disseram: trinta e três. Por alguns segundos titubeei. Por gentileza, não por acreditar (como alguém que ensaia um gesto estúpido e previsível para ser espontâneo – o que o torna mais estúpido ainda), prossigo.
Não, trinta e três não é trezentos e trinta. Zero faz toda diferença. É isto.
Dei a volta ao círculo. No meio do caminho, quase encontrei: Leisa. Parei por alguns segundos. Não, havia um zero, um redondo G antes de Leisa. Sim, quase, sempre.
Tarde cheguei a casa, cansado de nada acontecer.

27/08/2011

Muitos de nós

Quando perguntam “que mundo daremos aos nossos filhos?”, deveriam também perguntar “que filhos daremos ao mundo?”

Um, nenhum, ninguém.